'Estado da União': Trump deu declarações falsas ou enganosas, diz agência; veja quais
25/02/2026
(Foto: Reprodução) Trump defende avanço da economia e política de imigração
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, apresentou uma realidade frequentemente distorcida sobre a situação do país ao reivindicar uma “virada histórica” protagonizada por seu governo durante o tradicional discurso do "Estado da União" na terça-feira (25), segundo checagem feita pela agência de notícias norte-americana Associated Press (AP).
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A AP chegou as declarações de Trump sobre diversos temas, como eleições, inflação, imigração, tarifas e guerras ao redor do mundo. Segundo a agência, Trump "voltou a recorrer a uma retórica baseada na desinformação" durante seu discurso ao Congresso norte-americano.
Veja abaixo algumas das falas e por que elas foram consideradas pela AP como falsas ou distorcidas:
Eleições
Trump: “Peço que aprovem o Save America Act para impedir que imigrantes ilegais e outras pessoas não autorizadas votem. A fraude é generalizada.”
Checagem: Falso.
➡️ Os fatos: Trump e seus aliados nunca apresentaram provas de fraude generalizada. Especialistas afirmam que fraude eleitoral é extremamente rara.
Em Michigan, uma revisão identificou 15 pessoas que aparentemente não eram cidadãs e votaram na eleição geral de 2024, entre mais de 5,7 milhões de votos. Treze casos foram encaminhados ao procurador-geral.
Donald Trump fala ao Congresso americano.
Nathan Howard/Reuters
Economia
Trump: “Quando falei pela última vez neste plenário, há 12 meses, eu havia acabado de herdar uma nação em crise, com uma economia estagnada.”
Checagem: Enganoso.
➡️ Os fatos: Não é exatamente como Trump falou. Nas eleições de 2024, os eleitores estavam insatisfeitos com a inflação elevada, porém a economia dos EUA estava longe de estagnada. O Produto Interno Bruto (PIB) dos EUA cresceu 2,8% em 2024, já descontada a inflação. Trata-se de um ritmo mais forte do que os 2,2% registrados no ano passado, no início do segundo mandato de Trump.
Trump: “As rendas estão subindo rapidamente, a economia está aquecida como nunca.”
Checagem: Enganoso.
➡️ Os Fatos: Não é o caso. A renda após impostos, ajustada pela inflação, subiu apenas 0,9% em 2025, abaixo dos 2,2% de 2024, último ano de Biden no cargo. O ganho anual no primeiro ano de Trump é o menor desde 2022, quando a inflação disparou e reduziu a renda real dos americanos.
Salários e vencimentos são o maior componente da renda, e seu crescimento desacelerou à medida que as empresas reduziram fortemente as contratações. Em um ambiente assim, os trabalhadores tendem a obter aumentos menores.
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Imigração
Trump: “Sempre permitiremos que pessoas entrem legalmente, pessoas que amem nosso país e trabalhem duro para mantê-lo.”
Checagem: Enganoso.
➡️ Os fatos: Trump adotou medidas para restringir quem pode imigrar para os EUA, frequentemente sob o argumento de proteger a segurança nacional. Ele suspendeu o programa de refugiados no primeiro dia de governo e, em outubro, o retomou apenas de forma limitada para sul-africanos brancos. Também impôs restrições a viagens e imigração de quase 40 países, muitos na África.
Segundo a mídia dos EUA, imigrantes com status legal temporário ou condicional têm sido deportados pelo governo Trump por meio de revogações em massa de programas de asilo, por exemplo. Além disso, o Departamento de Segurança Interna tem prendido e deportado imigrantes ilegais que estão nos EUA há anos e sem ficha criminal.
O presidente dos EUA, Donald Trump, segura um cartaz com a fotografia de uma pessoa que ele afirma ser um imigrante ilegal
REUTERS/Jessica Koscielniak
Investimento estrangeiro nos EUA
Trump: “Garanti compromissos de mais de US$ 18 trilhões (cerca de R$ 93 trilhões) fluindo de todas as partes do mundo.”
Checagem: Enganoso.
➡️ Os Fatos: Trump não apresentou provas de que tenha garantido esse volume de investimento, doméstico ou estrangeiro, nos EUA. Com base em declarações de empresas, países estrangeiros e no próprio site da Casa Branca, o valor parece exagerado, altamente especulativo e muito superior ao montante real.
O site da Casa Branca apresenta um número bem menor, US$ 9,6 trilhões (cerca de R$ 49,5 tri), que aparentemente inclui compromissos feitos ainda durante o governo Biden.
Um estudo publicado em janeiro levantou dúvidas sobre se mais de US$ 5 trilhões (cerca de R$ 25,7 tri) em compromissos anunciados no ano passado por grandes parceiros comerciais dos EUA realmente se concretizarão e questionou como seriam aplicados.
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Geração de empregos
Trump: “Mais americanos estão trabalhando hoje do que em qualquer outro momento da história do nosso país.”
Checagem: Verdade, mas em partes.
➡️ Os Fatos: Sim, mais norte-americanos estão trabalhando, mas o número de cidadãos empregados sempre cresce à medida que a população aumenta. O indicador relevante é a proporção de americanos com emprego, que caiu significativamente no último quarto de século, em parte porque a força de trabalho está envelhecendo e mais pessoas estão aposentadas.
Essa proporção atingiu o pico de 64,7% em abril de 2000 e estava em 59,8% em janeiro desde ano.
A taxa de desemprego nos EUA atualmente é baixa, de 4,3%, mas era ainda menor na época que Joe Biden deixou o cargo, em janeiro de 2025: 4%. Durante o governo do democrata, inclusive, o índice chegou a 3,4%, o menor em 50 anos.
Criminalidade
Trump: “No ano passado, a taxa de homicídios teve a maior queda já registrada na história.”
Checagem: Enganoso.
➡️ Os fatos: Trump reivindica crédito por uma queda significativa nos crimes violentos em 2025, dizendo que a taxa de homicídios caiu ao menor nível em 125 anos. A fala, porém, é enganosa porque o crime já vinha em queda nos últimos anos.
Um estudo divulgado em janeiro pelo Council on Criminal Justice apontou redução de 21% na taxa de homicídios entre 2024 e 2025 em 35 cidades analisadas.
Relatórios do FBI para 2023 e 2024 já mostravam reduções significativas. O crime havia disparado durante a pandemia de coronavírus, com aumento de quase 30% nos homicídios em 2020, mas voltou a níveis próximos aos anteriores à pandemia por volta de 2022, durante o governo Biden.